Ademais, salientamos que o pensamento gramsciano insere-se hegemonicamente no
terreno da política e da ideologia, de forma que, sua teoria do Estado ampliado ou integral
(sociedade política, sociedade civil, hegemonia, ditadura, coerção, consenso, dominação,
direção, entre outros aspectos) nos permite refletir sobre uma diversidade de temas, sem que
percamos de vista as determinações estruturais em sua relação dialética com a superestrutura.
Nesse sentido, para fins analíticos do presente ensaio, nos detemos a refletir sobre o
conceito de hegemonia do autor, compreendendo que esta:
Caracteriza-se pela combinação da força e do consenso, que se equilibram de
modo variado, sem que a força suplante em muito o consenso, mas, ao
contrário, tentando fazer com que a força pareça apoiada no consenso da
maioria, expresso pelos chamados órgãos da opinião pública- jornais e
associações-, os quais, por isso, em certas situações, são artificialmente
multiplicados (GRAMSCI, 2007: 95).
Em outras palavras, o conceito de hegemonia refere-se a capacidade que um grupo social
tem de influenciar culturalmente outros grupos com suas concepções de mundo e valores. Para
tal, é necessário situar a sociedade política como classe dominante que “exerce seu poder e sua
dominação por uma ditadura através dos “aparelhos coercitivos de Estado” (MONTÃNO;
DURIGUETTO, 2010: 46), bem como, a sociedade civil, em que o “exercício do poder ocorre
por intermédio de uma relação de hegemonia que é construída pela direção política e pelo
consenso” (MONTÃNO; DURIGUETTO, 2010: 46). Nesse sentido, são utilizadas tanto forças
coercitivas, em que há a manuntenção do status quo pelos usos dos aparelhos coercitivos do
Estado (aparato militar, direito etc), como de estratégias de consenso, sejam eles ativos ou
passivos, por meio dos aparelhos privados de hegemonia, a exemplo dos grandes partidos e
sindicatos de massa, escolas, organizações culturais, movimentos sociais, mídia, etc.
Com o exposto, podemos afirmar que o terreno de disputa pela hegemonia está
localizado, sobretudo, na sociedade civil, devido a maior permeabilidade da disputa pelas ideias
e concepões de mundo. A sociedade política pode ser classe dominante, mas precisa que a sua
legitimidade esteja presente entre as classes subalternas, para tornar-se também classe dirigente.
Segundo Coutinho (2011), nas palavras de Gerratana, Gramsci elaborou uma “teoria
geral da hegemonia”, que situa as disputas que envolvem o processo de busca pela hegemonia
vinculados tanto aos interesses proletários, quanto aos burgueses, visto que toda classe para
tornar-se dominante e dirigente deve possuir a hegemonia em determinando tempo histórico.
Assim, a hegemonia em Gramsci é um conceito estratégico e analítico, pois possibilita analisar
as diferentes formas com que as classes tornam-se dirigentes em cada tempo histórico, mas
também é um conceito central para pensar sua estratégia de transição para a sociedade regulada.