revolução.
O “nacional-popular”, a discussão de literatura em Gramsci e a luta política
No Caderno 21, parágrafo 5, Gramsci (2002) coloca que, na Itália, a noção de “popular”
é muito restrita ideologicamente, uma vez que esta construção foi feita com ausência do povo,
nomeando este fenômeno de uma “tradição de casta, que jamais foi quebrada por um forte
movimento político popular ou nacional vindo de baixo” (GRAMSCI, 2002: 42). Gramsci traz
como exemplo a produção da literatura do período, desconectada da realidade do povo e que
disseminava produções estrangeiras livrescas e “antinacionais”, ou seja, que não valorizavam
aspectos do povo italiano. Para este teórico, isso demonstrava o caráter cosmopolita da Itália,
que encarnava um modo de vida burguês e uma padronização desterritorializada e
desculturalizada, sem vínculo real com o “povo-nação”. Mais: sem produzir intelectuais
realmente populares/do povo. Nas palavras dele:
Os intelectuais não saem do povo, ainda que acidentalmente algum deles seja
de origem popular; não se sentem ligados ao povo (à parte da retórica), não o
reconhecem e não sentem suas necessidades, suas aspirações e seu
sentimentos difusos; mas são, em face do povo, algo destacado, solto no ar,
ou seja, uma casta e não uma articulação (com funções orgânicas) do próprio
povo. A questão deve ser estendida a toda cultura nacional-popular e não se
restringir apenas à literatura narrativa: o mesmo deve ser dito do teatro, da
literatura científica em geral (ciências naturais, história, etc.). [...] Esses livros
estrangeiros, quando traduzidos, são lidos e procurados, obtendo
freqüentemente enorme sucesso. Tudo isso significa que toda a "classe culta",
com sua atividade intelectual, está separada do povo-nação, não porque o
povo-nação não tenha demonstrado ou não demonstre se interessar por esta
atividade em todos os seus níveis, dos mais baixos (romances de folhetim) aos
mais elevados, como o atesta o fato de que ele procura os livros estrangeiros
adequados, mas sim porque o elemento intelectual nativo é mais estrangeiro
diante do povo-nação do que os próprios estrangeiros (GRAMSCI, 2002: 43).
O incômodo de Gramsci com a questão da literatura justificava-se por este aspecto estar
conectado à construção de uma hegemonia nova (MUSSI, 2010), algo que não se dava
mecanicamente pois, como já fora dito, ele entendia hegemonia como fruto de um processo
determinado pela correlação de forças entre classes, assim como a atividade literária relaciona-
se com a forma como o mundo da cultura se forjou até então. Desta maneira, a literatura não é
uma questão menor no pensamento de Gramsci: essa era considerada como uma atividade, que
possuía papel fundamental no novo equilíbrio de forças – o momento “nacional-popular”
(GRAMSCI, 2002). Neste sentido, a construção de uma literatura popular era necessária, já que
traria concretude para a formação intelectual das massas, tratando-se de uma produção literária
que dialogasse, descrevesse e espelhasse o modo de vida das camadas populares. Assim, “os