planejamento estratégico, despertam um amor pela cidade, ou melhor, pela imagem
mercantilizada da cidade que camufla a realidade concretamente contraditória entre
embelezamento e segregação. Para a autora, o atual estágio do capitalismo é realizado através
da produção de um novo espaço que atende às exigências da acumulação capitalista, seguindo
os preceitos da agenda neoliberal. Nesse sentido, o embelezamento de cidades pode ser
compreendido como um processo que está “evidenciando a importância que vem adquirindo o
city marketing como instrumento das políticas urbanas” (SÁNCHEZ, 2009: 171).
Abrir “janelas” para o rio (PONTE, 2005) foi uma das justificativas – tanto no meio
técnico-burocrático quando na mídia de massas – para implementação da intervenção
urbanística Orla do Portal da Amazônia, que se deu com a propagação da imagem construída
acerca de uma das metrópoles da Amazônia, a Belém do “Grão Pará” e sua relação com as
águas urbanas. Trata-se de um discurso aparentemente coerente de “devolução” da orla
(PONTE, 2005) e de resgate de uma idealizada identidade ribeirinha negada pelo processo de
urbanização centralizada, pois, a priori, assim se deu a urbanização de Belém, quando suas áreas
mais baixas e margens dos rios não haviam despertado interesse das frações de classe dominante
– que determina a produção do espaço urbano – e do Estado capitalista que a legitima.
A apropriação de espaços antes relegados à invisibilidade, segundo Sánchez (2009),
segue uma tendência mundial de intervenções urbanas com fins mercadológicos. Para a autora:
Alguns governos locais vêm investindo expressivos recursos em projetos de
revitalização de áreas, em operações urbanísticas de renovação ambiental ou
em obras de arquitetura espetacular, instrumentais na construção da imagem
da cidade que está se renovando dentro de um projeto de “desenvolvimento
sustentável” [...]. Alguns casos parecem referenciais desse urbanismo que se
pretende irradiador da modernização desta virada de século, pautada em
parâmetros globais: a revitalização da área portuária em Buenos Aires com o
projeto Puerto Madero que transformou antigos galpões num complexo
gastronômico e turístico internacional (SÁNCHEZ, 2009: 178-9).
O trecho acima exemplifica as convergências entre uma tendência global de intervenção
nas cidades e a experiência particular do que vem ocorrendo na orla de Belém. A "produção da
metrópole como negócio" (CARLOS et al, 2015: 44-5) tem como base primeira a apropriação
do espaço, pois este é fundamental à reprodução do sistema capitalista. Contudo, a lógica
econômica engloba tanto aspectos materiais quanto imateriais da vida cotidiana. É nesse sentido
que o Projeto Portal da Amazônia se refere ao potencial turístico da sua área de abrangência.
Embora este traga um discurso que aparentemente viria a atender as condições materiais e
imateriais de existência dos sujeitos atingidos direta e indiretamente, o mesmo segue a lógica
capitalista de embelezamento de cidades, cujo o intuito é vender a imagem da cidade à qual se
agrega o valor de mercadoria (VAINER, 2002).