DOI 10.34019/1980-8518.2020.v20.30822
Revista Libertas, Juiz de Fora, v.20, n.1, p. VII-XVI, jan. / jun. 2020 ISSN 1980-8518
EDITORIAL
Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura
deram mais realce a essa concepção infantil,
raiando-a de violência, não tanto por ele em si, pela
sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela
vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou
e não reprimiu a ferocidade dos seus auxiliares e
asseclas.
Lima Barreto, O triste fim de Policarpo Quaresma
... a propósito de Floriano Peixoto
O processo de editoração desse volume da Revista LiberTas teve a peculiaridade de
coincidir com um momento no mínimo inusitado da história contemporânea: a pandemia
provocada pelo vírus corona. A tão propalada globalização da economia estende o leque de suas
consequências não apenas para a campo das crises econômicas propriamente ditas, mas também
para outras esferas essenciais da vida, neste caso, a saúde. O caráter inesperado desta crise
assoma-se aos rumos praticamente inevitáveis da crise econômica que estava por vir; a
pandemia se junta às tendências em curso e eleva a crise ao patamar de catástrofe internacional
de imensas proporções. Em meio às incertezas das consequências mundiais a que o desfecho
desta crise pode levar, nós brasileiros, por nossas próprias mazelas e indefinições, podemos
esperar um conjunto de irresolubilidades sociais ainda maiores.
O agravamento particular da crise em nosso país tem raízes bem antigas, fruto da
estrutura e “tradição” que nunca deixou de ser marcada pelos traços conservadores e retrógrados
presentes desde sempre na sociedade brasileira e hoje agravados por posições extremas,
irascíveis e impulsivas. Não bastasse a situação de calamidade própria de uma pandemia,
assistimos ao descontrole e acirramento de posições políticas, em um caos tão insano que eleva
às raias do absurdo a prostração e inação debochada frente aos malefícios causados pelo vírus.
Nunca de forma tão evidente como agora, as tendências mais absurdas e extremas do
conservadorismo haviam-se presentificado de maneira tão explícita. Em um momento em que
a urgência dos tempos exige lucidez e clareza para a prospecção do futuro, assistimos ao
desenredo do caos político e governamental orquestrado pelo retorno de um passado que sempre
insistiu em se fazer presente.
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VIII
A propósito das raízes deste conservadorismo que assola o presente, cumpre aditar
algumas rápidas palavras. Ele nunca deixou de existir, apenas se recolheu por um período como
um predador à espreita esperando o momento ideal para proferir seu ataque. Sobre o processo
da formação da sociedade brasileira, em particular, sobre a composição das forças que se
colocaram como os dominantes dos rumos nacionais, Carlos Nelson Coutinho tece
considerações bastante elucidativas sobre a transição do Brasil para o capitalismo:
a burguesia se ligou às antigas classes dominantes, operou no interior da
economia retrógrada e fragmentada. Quando as transformações políticas se
tomavam necessárias, elas eram feitas 'pelo alto', através de conciliações e
concessões mútuas, sem que o povo participasse das decisões e impusesse
organicamente a sua vontade coletiva. Em suma, o capitalismo brasileiro, ao
invés de promover uma transformação social revolucionária o que
implicaria, pelo menos momentaneamente, a criação de um 'grande mundo'
democrático - contribuiu, em muitos casos, para acentuar o isolamento e a
solidão, a restrição dos homens ao pequeno mundo de uma mesquinha vida
privada.
1
O conservadorismo atravessa toda a história brasileira, cuja marca inapagável trovem
de seu nascedouro. A peculiar entificação do capitalismo, em nosso país, não ocorreu por meio
de uma revolução, mas pela conciliação em que preserva os interesses “de uma mesquinha vida
privada”. Desse modo, não se insere o novo, apenas se muda um âmbito restrito da realidade
social – alguns aspectos de sua economia – promovendo a manutenção dos antigos privilégios
em detrimento de quaisquer formas de expressão autêntica da vontade coletiva.
Os primórdios da sociedade brasileira são marcados pelo confronto entre duas grandes
tendências na política. A vitoriosa, caracterizada pela perspectiva tradicionalista e conservadora
contrapôs-se à tendência que propunha transformações de feitio democrático e à ideia de um
desenvolvimento econômico nacional próprio. Quanto a isso, vale lembrar as palavras de José
Onório Rodrigues:
A vitória secular da primeira representou a derrota do progresso econômico e,
consequentemente, a história cruel para o povo, sacrificado na educação, na
saúde, no bem-estar. Se somarmos o sangue dos rebeldes e inconformados à
crueza das repressões, às rebeldias, à contínua e ininterrupta insensibilidade
das lideranças, à mortalidade infantil, ao apavorante e desmoralizante grau de
analfabetismo, ao número de doentes, ao crescimento das favelas, e à vida
sub-humana das populações rurais, teremos um processo histórico cruento.
2
As páginas ainda não viradas de nossa histórica ficam evidentes quando folheamos as
1
COUTINHO, Carlos Nelson; Literatura e humanismo; Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967; p. 142.
2
RODRIGUES, José Osório; Conciliação e reforma no Brasil: um desafio histórico; Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1965, p. 114.
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IX
páginas de uma obra literária que retrata de maneira excepcional as raízes da formação do
espírito de parte de nosso povo. As semelhanças o o meras coincidências, pois retratam um
passado que insiste em se fazer presente. A propósito de Floriano Peixoto, esse ícone funesto
da instauração da república brasileira, nos diz Lima Barreto:
A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a
aristocracia; era a de uma tirania doméstica. O bebê portou-se mal, castiga-se.
Levada a coisa ao grande, o portar-se mal era fazer-lhe a oposição, ter opiniões
contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e
morte. (LIMA BARRETO, 2018, p. 346)
As surpreendentes e decisivas considerações de Lima Barreto não se rendem à
compreensão simplicista que reduz o curso da história à personalidade das figuras que
desempenharam papel proeminente em determinadas épocas. Tais personalidades somente
ganham relevância na medida em que cumprem um papel social correspondente às expectativas
e características sociais de certas classes, na exata medida em que compõem o perfil mais geral
de parte expressiva de uma população, em que representa seus elementos tendenciais, mesmo
se contraditórios; ou seja, quando cumprem um mandado social historicamente posto pelas
condições sociais de uma nação. A esse propósito, Lima Barreto acrescenta acertadamente:
Sua preguiça, sua tibieza de ânimo e seu amor fervoroso pelo lar deram em
resultado esse “homem-talvez” que, refratado nas necessidades mentais e
sociais dos homens do tempo, foi transformado em estadista, em Richelieu, e
pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que vigor, obtendo vidas,
dinheiro e despertando até entusiasmo e fanatismo. (LIMA BARRETO, p.
346)
Se omitirmos as especificidades históricas, se nos déssemos ao trabalho de substituir
nomes e situações particulares, reescrever essas palavras em nossos dias significaria uma
descrição bem próxima aos descalabros e descaminhos em curso no país.
Sem negligenciar a particularidade histórica dos dias atuais, não seria de todo incorreto
compreender o campo das forças em curso, como formas de regressividade de um capitalismo
periférico e dependente. Entretanto, tal forma regressiva tem intenções recônditas que precisam
ser trazidas à luz. Em um país em que parte o desprezível da população (o famigerado e
persistente “30%”) se vê arrebatada pela retórica verde-amarela de seu chefe, tomados por
arroubos de alta tensão patriótica, cuja face mais aparente não deixa de ser a expressão
disfarçada do sussurrante instinto pequeno burguês, o que se põe no horizonte – para esses – é
a defesa, custe o que custar, do status quo. Não nos enganemos, esse espírito de ódio pelo
adversário, essa mentalidade agressivamente autoritária, os brados retumbantes de
reconstituição das antigas tradições e de uma moral cristã arcaica, prestam-se, na realidade, à