DOI 10.34019/1980-8518.2020.v20.30657
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Revista Libertas, Juiz de Fora, v.20, n.1, p. 53-69, jan. / jun. 2020 ISSN 1980-8518
Pandemia e capital
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: as repercussões da
Covid-19 na reprodução social
Ricardo Lara
*
RESUMO: Neste artigo, no primeiro momento, situamos o debate sobre as doenças e pandemias que
assolaram a humanidade. No segundo momento, problematizamos algumas repercussões da pandemia
provocada pelo coronavírus (Covid-19) na reprodução social. Propomos, em caráter introdutório, o
diálogo entre a crítica epidemiológica e as relações sociais de produção, com o propósito de indicarmos
caminhos possíveis de compreensão da Covid-19 pautados na análise histórica dos processos
socioeconômicos.
PALAVRAS-CHAVES: Covid-19. Capital. Reprodução social.
Pandemic and capital: the repercussions
of the Covid-19 on social reproduction
ABSTRACT: In this article, at first, we aim to situate the debate about some diseases that have plagued
humanity. In the second moment, we problematize some repercussions of the pandemic caused by the
coronavirus (Covid-19) in social reproduction. We propose, on an introductory basis, the dialogue
between epidemiological criticism and social relations of production, with the purpose of indicating
possible ways of understanding Covid-19 based on the historical analysis of economic and social
processes.
KEYWORDS: Convid-19. Capital. Social reproduction.
Submetido em 17/05/2020
Aprovado em 10/06/2020
1
Capital é entendido aqui como relação social de produção, em que todas as forças produtivas de uma determinada
sociedade são direcionadas para a produção de valor. No caso específico da sociedade capitalista, denominamos
simplificadamente de lucro. A maioria do esforço científico e produtivo objetiva, em última análise, a acumulação
de capital.
*
Professor do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina. Doutor em Serviço
Social pela Universidade Estadual Paulista. Pós-doutorado pelo Instituto de História Contemporânea da
Universidade Nova de Lisboa. Pesquisador Bolsa Produtividade CNPq. Editor Chefe da Revista Katálysis.
Ricardo Lara
Revista Libertas, Juiz de Fora, v.20, n.1, p. 53-69, jan. / jun. 2020 ISSN 1980-8518
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Introdução
As pandemias acompanham a humanidade desde sua origem. A história registra as mais
diversas doenças, epidemias e pandemias as quais em determinadas particularidades históricas
e situações afligiram tribos, comunidades, vilas, cidades e nações.
As doenças, com grande capacidade de disseminação e contágio, arrasaram até as mais
fortificadas cidades, como foi o caso da peste antonina que atingiu Roma em 165. A pandemia
que ocorreu no Império Romano se iniciou junto às tropas que estavam instaladas na rtia, um
território romano localizado na Mesopotâmia. Por essas tropas, a doença chegou em Roma em
166 e foi a causa de até duas mil mortes por dia (HAYS, 2005). Os estudos indicam que
provavelmente tenha sido um surto de varíola. Estima-se que 5 milhões de pessoas morreram
como consequência da peste antonina.
Ao longo da história e da formação da sociedade moderna, podemos destacar algumas
doenças que se tornaram epidemias e em alguns casos pandemias. Numa ordem cronológica
podemos destacar: Peste de Atenas (430-427 a.C.); Peste antonina em Roma (166); Epidemia
de varíola no Japão (735-737); Peste Bubónica (1347-1353); Praga da China (1641); Epidemia
de febre amarela em Nova Orleans (1853); Pandemias de cólera (ao longo do século 19); Gripe
espanhola (1918-1919); Pandemia de AIDS (1980); Pandemia de SARS-1 (2002-2004); Gripe
Suína (2009); Epidemia de cólera no Haiti (2010); Ebola (2013-2016); Zica Vírus (2015);
Pandemia da Covid-19 (2020).
As pandemias destroem exércitos como foi o caso da gripe espanhola (1918/19) que
ocorreu durante a Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918), chegando a causar a morte de
aproximadamente 50 milhões de pessoas em todas as partes do planeta (BBC, 2020). A
experiência global da gripe espanhola estima ter matado 1 a 3% da humanidade. No círculo da
guerra, a gripe encontrou um lugar favorável nos acampamentos dos exércitos e nas trincheiras
do campo de batalha levando à morte muitos soldados. Isto se tornou um fator importante na
batalha dos impérios (DAVIS, 2020). Nos países da periferia a gripe espanhola teve
repercussões diferentes:
Raramente se aprecia que uma grande proporção da mortalidade global tenha
ocorrido no Punjab, Bombaim e outras partes da Índia Ocidental, onde as
exportações de cereais para a Grã-Bretanha e as práticas brutais de exportação
coincidiram com uma grande seca. A escassez de alimentos resultante levou
dezenas de pessoas pobres à beira da inanição. Eles se tornaram vítimas de
uma sinistra sinergia entre a desnutrição que suprimiu sua resposta
imunológica à infecção e produziu uma inflamação bacteriana, bem como uma
pneumonia viral (DAVIS, 2020, p.7).